Atentado? Acidente? Mistério sobre explosão em Bauru completa 50 anos
Avenida Nações Unidas foi pelos ares minutos depois da passagem do presidente Geisel; investigação oficial deixou perguntas no ar até hoje
Flávio Rossi Mantovani
Um roteiro digno de cinema. Em 13 de agosto de 1976, uma sexta-feira, Bauru comemorava seu 80º aniversário.
A cidade estava em festa naquela manhã, com direito à presença do presidente Ernesto Geisel e do governador Paulo Egydio Martins.
Ao lado do prefeito Edmundo Coube, eles cumpriram agenda no centro da cidade. Aproximadamente 30 mil moradores acompanharam as autoridades, segundo os jornais da época.
Cerca de 40 minutos após a comitiva presidencial deixar o município, uma série de explosões atingiu a Avenida Nações Unidas, principal artéria de Bauru.
Vários pontos do canteiro central foram pelos ares. Vidraças se quebraram; casas tremeram. Fogo e labaredas surgiram na antiga fábrica da Antárctica.
Um forte cheiro de gás se espalhou pelos arredores. Ninguém sabia ao certo o que tinha ocorrido. A população ficou em pânico.
O fotógrafo Antonio Quioshi Goto almoçava na casa da sogra quando ouviu os estrondos. Pegou o equipamento e correu até a avenida, que ficava ali perto.
Encontrou um cenário de guerra. Coqueiros tombados, gente boquiaberta. O impacto atingiu um Fusca: o para-lama do Volkswagen foi parar em cima de uma laje.
Era um atentado, sem dúvida. A comitiva presidencial havia passado pela Nações Unidas menos de uma hora antes das explosões, rumo a Jaú. O país vivia os anos de chumbo. Eram tempos de polarização. Foi por um triz.
Bauru virou notícia. Folha de São Paulo, Estadão e Jornal do Brasil, entre outros grandes veículos, deram a notícia.
Milagrosamente, ninguém morreu.

Enfim, os fatos
A realidade, contudo, é bem menos interessante. Um caminhão-tanque que transportava combustível tombara na parte alta da cidade.
A gasolina escorreu pelas galerias pluviais e pelo Córrego das Flores, canalizado abaixo da avenida. Só foi preciso uma faísca para provocar a explosão. O dano atingiu cerca de 12 quarteirões.
De qualquer forma, os negativos de Quioshi foram solicitados pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de espionagem da ditadura. Nunca mais voltaram. O resultado da perícia oficial também nunca foi revelado.

Vozes silenciadas ganham rosto
Embora o episódio tenha ganhado repercussão nacional há exatos 50 anos, muito pouco se falou sobre uma figura central naquela sexta-feira, 13: o caminhoneiro Aidanor Turini, que chegou a ser chamado de “terrorista”.
Esse outro lado da história aparece no documentário Do Barulho ao Silêncio: Vozes Caladas em Meio à Explosão, do jornalista Luís Negrelli.
O filme lançado em 2019 traz uma entrevista com Edneia, filha de Aidanor, já falecido à época. Ela descreve o impacto que o episódio causou no pai, o que inclui uma grave doença que – de novo – o deixou sem voz.
E o relato do choro compulsivo de Aidanor durante uma consulta médica sugere a extensão do estrago.

Assista abaixo ao documentário Do Barulho ao Silêncio: Vozes Caladas em Meio à Explosão.
