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Lô Borges e a Fampop: memórias dos encontros entre Minas e Avaré

Compositor mineiro, que morreu no dia 2 de novembro, esteve em cinco edições do festival avareense; relembre histórias do artista

Flávio Mantovani*

Não foi por falta de vontade. A Comissão Organizadora queria – de fato – o cantor e compositor Lô Borges (1952-2025) como atração na 1ª Feira Avareense da Música Popular (Fampop).

O artista mineiro, que morreu no domingo, 2 de novembro, já era um monstro da Música Popular Brasileira (MPB) em julho de 1983. E ídolo da garotada que havia fundado o festival de Avaré.

Mas o dinheiro era curto, e a organização teve de se contentar com um genérico: Os Borges, grupo formado pelos irmãos de Lô, todos criados em uma família musical.

Assim foi. “É claro que não faltaram músicas do irmão famoso”, relembra o músico Juca Novaes, fundador e presidente da 1ª Fampop.

A produção, contudo, não se deu por vencida. Lô Borges, que assina com Milton Nascimento o antológico Clube da Esquina, um dos discos mais importantes da MPB, entre outros célebres trabalhos em carreira solo, não demoraria para colocar os pés em Avaré.

 Lô Borges com Milton Nascimento

De Lobão a Lô Borges”

A primeira vez foi logo em seguida, já em 1985, quando ele fez um show com uma superbanda na 3ª Fampop.

Foi a primeira edição da feira realizada ginásio de esportes, o que deu um trabalho danado para a organização. Isso porque foi preciso um tratamento acústico no teto.

O mineiro voltaria à feira em 1989, e em circunstâncias curiosas. O escalado da vez era o cantor carioca Lobão.

Ocorre que o autor de Me Chama, que vivia em pé de guerra com a Justiça brasileira, acabou preso, justamente quando sua contratação já estava avançada.

Foi um corre-corre. Por sorte, apareceu um empresário vendendo um show com Lô Borges, Boca Livre e Flávio Venturini, salvando a noite.

O episódio inusitado virou piada. “Não veio o Lobão, mas veio o Lô Borges”, brinca o produtor Juca Novaes, que lamentou a morte do músico, com quem tinha uma relação de amizade.

“Lô foi uma referência absoluta na minha trajetória artística, o rei das harmonias e melodias insuperáveis, o garoto que desde muito jovem criou obras imortais, verdadeiros clássicos”, escreveu o avareense em seu perfil no Facebook.

Juca Novaes com o mineiro Lô Borges

Outras passagens pela Fampop

Depois de outra apresentação na feira durante a primeira metade dos anos 90, Lô Borges voltou à Fampop, em 2002, ao lado de ninguém menos que Milton Nascimento, patrono da edição, com o show Clube da Esquina, que tinha o reforço de Flávio Venturini, Beto Guedes e Toninho Horta.

Depois de tantas passagens por Avaré, Lô – enfim – esteve na Fampop na condição de patrono durante o ano de 2012.

Foi a última participação do mineiro, que fazia jus à fama de seus conterrâneos. O escritor Gesiel Júnior, assessor de imprensa da Fampop por mais de uma década, lembra que o artista não era de muita prosa.

Júnior notou que Lô levava um bloquinho no bolso, no qual fazia anotações. “Acho que escutava, observava e guardava impressões silenciosas”. Coisa de artista.

Abduzido por Lô

A edição na qual Lô Borges foi patrono teve como campeão o cantor e compositor Fernando Cavallieri, que emplacou a canção Flor de Lácio, escrita em parceria com Zé Edu Camargo.

“Receber o prêmio das mãos do Lô foi um dos maiores acontecimentos da minha carreira”, relembra Cavallieri, que também sentiu o baque causado pela morte do artista.

Dá pra imaginar a emoção. Fernando Cavallieri foi “abduzido” pelo mineiro quando tinha oito anos. Ele voltava a pé da escola, em Santo André, quando, numa casa, ouviu tocando, bem alto, a música Tudo Que Você Podia Ser. A faixa composta por Lô e por Márcio Borges abre o Clube da Esquina.

Cavallieri, que já arranhava o violão, ficou impressionado com o arranjo. Era diferente dos acordes tradicionais que ele conhecia por influência do pai, cantor de música caipira.

“Aquilo me pegou de um jeito tão forte, que depois eu acabei sonhando com essa música”, relata à reportagem.

No sonho, o garoto entrava num túnel. “Fui abduzido, e eu nem sabia quem era Lô Borges, quem era Milton Nascimento”.

Tudo Que Você Podia Ser é, até hoje, o trem azul que conduz Cavallieri ao passado, a ligação eterna com o seu “eu” criança. Uma história pessoal que insinua a grandiosidade musical dos mineiros.

Fernando Cavallieri recebe a premiação na Fampop de 2012

É só a lua”

Lô Borges morreu no domingo de Finados. Em Um Girassol da Cor de Seu Cabelo, o mineiro canta os seguintes versos: “Se eu morrer não chore, não/É só a lua”.

A reportagem teve a curiosidade de checar o céu na noite de segunda, 3, quando a chuva, enfim, deu uma trégua.

A lua estava deslumbrante. Parecia cheia, embora ainda estivesse na fase crescente. De tão iluminada. Coisa de artista.

*Texto originalmente publicado na edição nº 1595 do Jornal A Comarca, de Avaré (SP).

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