Festival de Águas Claras: as cinco décadas de um marco da contracultura brasileira
Conhecido como “Woodstock brasileiro”, evento reuniu milhares de hippies num clima de paz e amor (e drogas) no interior de SP, em pleno governo militar; Fruto Primeiro, grupo formado por músicos avareenses, se apresentou na última edição do festival, em 1984
Flávio Mantovani
Há cinco décadas, em plena ditadura militar, uma fazenda nos rincões do Brasil foi palco de um festival de rock que reuniu ao menos 15 mil hippies.
Um evento onde a maconha, o ácido e o chá de cogumelo rolaram soltos. Onde as pessoas andavam nuas e o amor era livre. O mais puro suco da psicodelia gestada a partir dos anos 60.
Polícia tinha. Os guardas estavam lá, acompanhando o movimento, só que um pouco atônitos, sem saber como reagir diante de tamanho desbunde.
E tudo isso apenas seis anos depois do mítico festival de Woodstock, num país que pertencia à periferia do mundo e que – até então – parecia alheio aos acontecimentos culturais do planeta.
Esse quadro, por si só, já seria pra lá de curioso. Impressiona ainda mais, contudo, o fato de o festival ter acontecido no interior de São Paulo, na zona rural de uma cidade que, segundo estimativas, não tinha mais que 7 mil habitantes à época.

Festival de Águas Claras atraiu hippies de várias partes do Brasil
Águas Claras, o Woodstock brasileiro
A primeira edição do Festival de Águas Claras, aquele que ficou conhecido como o “Woodstock brasileiro”, foi realizada nos dias 17, 18 e 19 de janeiro de 1975, bem nos moldes dos “três dias de paz e música” do similar americano.
A ideia partiu de Antonio Checchin Júnior, conhecido como Leivinha, um cabeludo que tocava flauta transversal e gostava de teatro.
O que era pra ser apenas um evento cultural para amigos e familiares na fazenda Santa Virgínia, de propriedade da família, acabou virando um festival de rock que atraiu milhares de malucos de várias partes do país.
A divulgação contou com um sofisticado aparato de marketing: boca a boca e cartaz. Na programação, bandas alternativas como Apocalypsis, Cogumelo e Som Nosso de Cada Dia, entre tantas outras.

Sexo, drogas e rock n’roll: Iacanga em seus dias de Woodstock
Um frango que a ditadura deixou passar
O Festival de Águas Claras entrou para a história por vários motivos. Inclusive, por ter sido um frango que a ditadura deixou passar por debaixo das pernas.
Tanto que o Ministério da Justiça, assim que percebeu o estrago, enviou um memorando aos estados brasileiros com uma ordem expressa: estavam proibidos em todo o país eventos ao ar livre com as mesmas características.
Leivinha e sua turma só conseguiriam fazer outra edição em 1981, depois de muita reunião em Brasília.
Também foi preciso uma mudança de rota. O Águas Claras não seria mais um festival de rock, o que, na visão das autoridades, era um chamariz para malucos, mas sim um evento de música brasileira com a presença de medalhões da MPB.

Festival de Águas Claras: um frango que a ditadura deixou passar
Ninguém menos que João Gilberto
Outra bola dentro do Festival de Águas Claras foi escalar João Gilberto, o pai da Bossa Nova, para a edição de 1983.
Imagine colocar o baiano num palco montado numa fazenda, nos confins do Judas, em meio à lama, e fazê-lo tocar num sistema de som que – obviamente – estava muito aquém dos padrões gilbertinianos.
Teve suspense, é claro. Havia chovido muito e já era madrugada quando João subiu ao palco. Momentos antes de iniciar a apresentação, começou uma microfonia.
João Gilberto franziu o rosto, para o desespero da produção. Enquanto a equipe corria para resolver o problema técnico, o idealizador do festival se dirigiu ao artista.
“Toca, João”, disse Leivinha, assertivo. João abriu um sorriso e fez aquele que é considerado o show mais antológico do Festival de Águas Claras.
Essas e outras histórias são contadas no documentário O Barato de Iacanga, de Thiago Mattar, que reconstitui a saga do festival, disponível na Netflix.

João Gilberto durante aquele que é considerado o mais antológico show do festival
Avareenses no Festival de Águas Claras
O Fruto Primeiro, grupo formado por avareenses, teve a sorte de tocar no Águas Claras em 1984, última edição do festival.
Era por volta das cinco da tarde quando Juca Novaes (piano e voz), Ize Novaes, Maida Novaes, Lucia Novaes e Cláudio Guerra (vocais), Sérgio Bello (guitarra), Joseph Coelho (baixo), Jorge Bauléo (bateria) e Dicão (percussão) pisaram no palco.
“Foi uma experiência incrível se apresentar para uma plateia ao ar livre”, afirma o cantor Cláudio Guerra em entrevista ao Fora de Pauta.
“Estávamos acostumados com palcos pequenos, como o do Lira Paulistana, e aquele era monstruoso”, continua o compositor.
Jards Macalé, que tocou em seguida, ficou no mesmo camarim que os avareenses. “Era um camarim muito grande e com muita cerveja”, rememora Juca Novaes ao Fora de Pauta.
É que a extinta Malt 90 foi a patrocinadora do festival. Os avareenses ficaram nos bastidores conversando com Macalé, naquele momento um dos “malditos da MPB”.
“Nosso visual ia na linha New Age, roupas coloridas. Eu usava vermelho. Jards Macalé me chamava de tomate. E tome cerveja”, continua Cláudio Guerra.
Outra memória dos avareenses diz respeito à chuva que acabou gerando o cancelamento das apresentações de Luiz Melodia, Moreira da Silva e até de João Gilberto, além de outros artistas.
O toró desanimou o pessoal de Avaré, que desistiu de assistir ao restante do festival. “A gente acabou voltando pra casa na mesma noite”, afirma Juca Novaes.

Juca Novaes (à esquerda) e grupo durante apresentação: e tome cerveja
Ah, uma vassoura!
Além de muita chuva, ventos fortes. Uma parte da lona que cobria o palco se soltou e começou a chicotear o equipamento. Leivinha, o organizador do festival, teve que escalar a torre para amarrar a ponta solta.
Em meio a tantos transtornos, ele olhou para o horizonte e desejou que o festival fosse varrido do mapa. “Foi essa a imagem mental que eu fiz”, conta em O Barato de Iacanga.
O sonho acabou ali, de fato. A fazenda acabou vendida posteriormente. No entanto, ainda que Leivinha tenha tirado o festival de sua vida, já não era mais possível varrer o Águas Claras das prateleiras da História.

Leivinha em cena do documentário “O Barato de Iacanga”
