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Avaré dá adeus a Genez Parize, seu centenário mais carismático

Conhecido pelo bom humor e famoso pela vitalidade, tieteense que vivia em Avaré desde a década de 1930 morreu em 19 de julho, a 15 dias de completar 107 anos

Flávio Mantovani*

Quando completou 100 anos em 2018, o aposentado Antônio Genez Parize tinha apenas uma preocupação na cabeça. “Será que o DETRAN vai deixar eu renovar minha carta?”

A apreensão revela um pouco da personalidade do centenário mais famoso e carismático de Avaré, que morreu no último 19 de julho, a 15 dias de completar 107 anos.

Parize era conhecido por sua vitalidade e pelo bom humor. Até pouco tempo atrás, dirigia, frequentava academia e pescava toda semana, disposição que lhe rendeu destaque permanente na imprensa regional e na TV.

Era muito querido pelos avareenses. E não por acaso: foi testemunha ocular da história de Avaré nas últimas nove décadas. E não só testemunha: ajudou a construí-la.

Origens

Genez Parize, como gostava de ser chamado, nasceu em 3 de agosto de 1918 na zona rural de Tietê, mas se mudou com a família para Avaré na década de 1930.

Adotou logo a profissão de alfaiate. Uma propaganda antiga mostra um pouco da irreverência de Genez Parize: na peça, a tesoura aparece maior que o alfaiate, referência bem-humorada à sua baixa estatura.

Católico atuante, Genez foi integrante do coral da igreja, onde exercia mais uma de suas paixões: o canto.

Foi a música, aliás, quem lhe apresentou seu grande amor. O jovem Parize já cantava na missa, mas ganhou um motivo a mais para não faltar aos ensaios: a organista Diva Cortez. Não demorou para que iniciassem o namoro.

O matrimônio foi oficializado em 6 de julho de 1947. Da união, nasceram os filhos Marco Antônio e Maria Diva.

Uma vida repleta de histórias

Genez Parize teve uma vida cheia de curiosidades. Foi coroinha no front na Revolução de 1932, quando testemunhou combates entre paulistas e as tropas de Getúlio na região de Fartura.

Na década de 50, com os companheiros da Congregação Mariana, fundou o Círculo Operário de Avaré, movimento social que atuava em prol da classe operária. A entidade chegou a construir casas para famílias de baixa renda.

O lado social também esteve presente na fundação de um sindicato de trabalhadores rurais, ocasião em que recebeu a alcunha de comunista. “Comunista, um católico fervoroso como eu. Imagine só”, relembrava, aos risos.

Genez Parize também integrou a diretoria de instituições que fazem parte da história de Avaré, como a Associação Comercial e Industrial de Avaré (ACIA), a Associação Athletica Avareense (AAA), a Fundação Vera Cruz (hoje Padre Emilio Immoos) e o Centro Avareense (CA), no qual ajudou a fundar o Departamento de Xadrez do clube nos anos 50. Genez foi um enxadrista de mão cheia e chegou a ganhar campeonatos.

Paralelamente à função de alfaiate e ao trabalho junto à igreja católica, Parize foi juiz de paz durante aproximadamente cinco décadas, tendo formalizado a união de milhares de avareenses.

Fanático por pescaria desde pequeno, não sossegou enquanto o filho Marco Antônio, que vive há décadas nos Estados Unidos, não o levou para pescar no Pacífico, o maior oceano do mundo.

São muitas histórias. Muitas delas estão compiladas no livro “Antônio Genez Parize: Vida e Obra de Um Centenário”, que tive o prazer de escrever na ocasião de seu centenário, quando ele ainda estava em plena forma física.

Um manso lago azul”

Costumava dizer que a vida era um manso lago azul. “Horas alegres cantando, horas tristes chorando”.

Genez Parize chorou, de fato, em 2005, quando a esposa Diva faleceu após quase 60 anos de união.

O aposentado longevo, aliás, costumava refletir sobre o outro lado de se viver muito. “Todo mundo da minha época já se foi. Sobrou pouca gente pra conversar”, dizia, em seus raros lamentos.

Cidadão Avareense, até que enfim

Após nove décadas de dedicação a Avaré, Genez Parize virou avareense – de fato – em 2014, quando recebeu o Título de Cidadão Avareense por indicação do então vereador Davi Cortez. “Achei merecido”, dizia, sem falsa modéstia. “Fiz mais que muito avareense”.

O aposentado manteve a rotina até quando pôde. Fazia ginástica, guiava, pescava, lia jornais, rezava o terço diariamente e cuidava da hortinha no quintal.

Mas a velhice cobra seu preço. Foi obrigado a abandonar a direção definitivamente em 2023, após um problema na vista.

As idas à academia do CA, que até colocou uma placa em homenagem ao seu ilustre frequentador, também foram diminuindo.

Teve ainda que abandonar as pescarias devido às limitações físicas, embora não tenha deixado de ir à missa.

Embora não estivesse doente, Genez Parize teve uma piora no quadro. Chegou a ser internado na Santa Casa de Misericórdia, mas não resistiu e morreu na manhã de sábado, 19 de julho.

Seu corpo foi enterrado no Cemitério Municipal de Avaré, cidade em que ele escolheu viver. Além dos filhos Marco Antônio e Maria Diva, Antônio Genez Parize deixa 6 netos e 11 bisnetos.

Além do legado de fé, trabalho e dedicação à família, deixa ainda outra importante lição: é possível levar vida na esportiva e com leveza, apesar dos espinhos que a vida teima em colocar ao longo do caminho.

*Matéria publicada originalmente na edição nº 1580 do jornal A Comarca (Avaré-SP).

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